Viver no fio da navalha

28 Jun
Sou provavelmente das pessoas mais medricas que conheço. Tenho medo de ter um cancro, tenho medo que um psicopata cisme comigo, sempre que vou à praia (e mesmo sabendo nadar) tenho medo de perder o pé e de me afogar estupidamente. Tenho um medo de morte de ficar tetraplégica. Tenho medo de acidentes de carro. À conta disso, e sobretudo quando ainda não tinha carta,  ia e vinha de comboio (muitas vezes sozinha) para a Figueira da Foz. Porque não gosto de andar de carro com gente que conheço mal, ou com amigos de amigos dos quais não conheço os comportamentos na estrada. Contudo já aconteceu, admito. 
Tenho medo de me esquecer de alguma coisa ligada em casa e pegar fogo ao prédio todo. Tenho um medo que me pélo de ser atropelada. Tenho medo de ficar cega. Morro de medo que me metam qualquer coisa na bebida para me drogar, quando vou a uma discoteca. Entre tantos outros.
Mas estes temores nunca me impediram de fazer coisas estúpidas que facilmente apelidaria de irresponsáveis. Não porque me ache imortal, ou tampouco porque me ache melhor que alguém. Por exemplo, já perdi a conta às vezes em que atravessei a rua fora de uma passadeira, porque estava com pressa. Já viajei de carro sem o cinto de segurança porque ia no banco do passageiro e “era mesmo já ali do outro lado da rua”. Já tive dias em que passei uma tarde toda sem comer porque estava atarefada demais. Já fiquei na praia tipo lagarto nas horas mais perigosas. E podia dar mais exemplos.
Na verdade quem nunca se coloca ou colocou em risco, deliberadamente, uma vez que seja?
A diferença entre mim e as pessoas que devido a uma conduta menos boa desgraçaram a vida, é que até agora fui tendo sorte. É que até ao momento Deus tem sido um fixe comigo. Essa é a única diferença.
Podem dizer o que quiserem, apregoar moralismos pelos sete cantos do mundo, mas eu não conheço ninguém (absolutamente ninguém) que nunca, jamais em tempo algum, tenha sido inconsequente – ainda que momentaneamente – colocando-se assim numa situação de risco. Toda a gente já o fez, simples assim. A bem da verdade, todos o fazemos diariamente (basta pensar na quantidade de gente que conduz a falar ao telemóvel, ou que fuma cigarros uns atrás dos outros). Porquê? Porque somos seres imperfeitos. Porque gostamos de adrenalina. Porque às vezes nem sequer pensamos no que estamos a fazer, fazemos e pronto vivendo no fio da navalha. No fundo, porque somos humanos.
Por isso é que me custa apontar o dedo a quem quer que seja. Sou humana, sou falível, e não tenho legitimidade nenhuma para fazer sentir ainda pior outra criatura. Já basta a culpa que uma pessoa deve sentir quando se mete numa alhada feia por causa de uma estupidez.
Posto isto, só me resta desejar que corra tudo pelo melhor a quem foi apanhado, de certa forma fatalmente, pelo destino. E de algum modo aprender e esforçar-me por ser mais conscienciosa.
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One Response to “Viver no fio da navalha”

  1. scalabis Tuesday 28 June 2011 at 09:49 #

    Assino por baixo. Viver, é precisamente, correr riscos. E é por isso que tem piada!

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