Crónicas de um casamento

17 Aug
Há cerca de três semanas fui a um casamento mais por uma questão de bem ser do que propriamente de vontade. Já sentada na mesa onde me colocaram discerni que não conhecia ninguém, embora todos se conhecessem. Depois de barafustar interiormente umas cinquenta mil vezes e culpar-me pela não invenção de uma desculpa conveniente, digna de  justificar verídica e atempadamente uma ausência, lá me empurrei a falar com um vizinho. Um tipo simpático, de trinta e poucos anos, que pegou na oportunidade para começar a discorrer acerca da sua vida amorosa. Excluindo o facto de me conhecer há apenas uns minutos não estranhei – quem não está habituado às histórias de desconhecidos em autocarros ou comboios? –  e lá fui esboçando um meio sorriso compreensivo ao melhor estilo de psicóloga estatal com o salário em atraso. Ainda tentei desviar o curso da conversa para assuntos ditos comuns, mas sem sucesso para meu desagrado. Até que a dada altura, já eu estava em modo de audição automática, me diz que namora há um ano e meio com uma pessoa que não conhece. Temendo estar a dar conversa a um maluquinho, lá me saiu um perturbado então interrogativo. Tratava-se pelos vistos de uma relação virtual com uma estrangeira. Já havia planos para casamento mas só iam conhecer-se pessoalmente em breve.
 
Apesar de me considerar uma pessoa compreensiva a história retorceu-me um pouco os neurónios. É que, se até conhecer pessoas na internet me faz um bocadinho de confusão – eu sei que há muita gente que se conheceu virtualmente e vive feliz, e pode muito bem acontecer-me a mim – viver uma relação com um ecrã humanamente colorido de emoções sem se conhecer o alvo de tamanho amor, soa-me a fantasia.
É claro que a felicidade é como um bocado de tecido e cada um a talha à sua medida. Parece-me indiscutível. Mas também me parece pouco realista que algo assim possa dar certo. Oxalá dê e seja uma bofetada de amor no meu coração céptico.
 Muito mais haveria para contar – se há coisa em que as bodas são férteis é em conversas e troca de ideias – mas quero deixar-vos a reflectir sobre isto das relações à distância de um clique. Afinal o que leva uma pessoa a procurá-las? Desespero? Solidão? Carência? Ou é apenas um capricho do acaso ao qual se dá uma mãozinha?

 

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One Response to “Crónicas de um casamento”

  1. S* Wednesday 17 August 2011 at 15:01 #

    Ora bem… sei que pode nascer um interesse online, afinal eu conheci o meu amor na internet. Mas ao fim de duas semanas de conversas diárias passamos ao real. 🙂

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