Da manifestação e das medidas de austeridade

15 Sep
Se por um lado é certo que as medidas que nos estão a ser impostas são difíceis, por outro também o é que, dentro do mal, este é o melhor caminho. Não é preciso ser um entendido em economia para perceber que estamos insolventes. Estamos sem dinheiro. Ninguém, mas é que ninguém nos empresta ou emprestará dinheiro se expulsarmos a Troika. Perdemos a credibilidade, perdemos a capacidade financeira, economicamente falando perdemos quase tudo. Por isso, entre apertar o cinto até à quase asfixia ou passar fome, a primeira opção parece preferível. Ou será que ninguém se lembra da crise argentina? Acham mesmo que viveríamos melhor sem a Troika na situação actual? É que sem Troika não há dinheiro, simples assim.
É óbvio que é discutível, não a necessidade das medidas implementadas, mas a maneira como o foram. Ainda assim, importa não esquecer que foi o povo português quem escolheu este caminho. E digo isto não em tom acusatório mas em tom realista. Com um certo pesar, confesso. Em 2002 o governo do Durão Barroso já dizia que “Portugal estava de tanga”. Mas preferimos votar (mais do que uma vez, aliás) nos castelos de areia criados pelo Sócrates (incrível como ninguém fala dele e o culpa), do que votar nalgum partido que realmente começasse a trabalhar em medidas que evitassem a chegada a este destino tenebroso, dez anos depois. Lembro-me de a Manuela Ferreira Leite já traçar este cenário, enquanto o governo socialista prometia empregos e TGV. Isto para não recuar um pouco mais no tempo, até ao governo do Guterres, em que cada feriado era devidamente acompanhado de uma ponte simpática. Em que toda a gente recebia subsídio por tudo e por nada, porque a Comunidade Europeia até ia enviando uns fundos para modernizar o país.
Estamos a pagar pela nossa própria irresponsabilidade. É claro que acho que os ex-governantes deviam pagar pelos seus erros. É claro que acho que deveriam ser legalmente chamados à responsabilidade, a apresentar contas tim tim por tim tim. Mas isso não acontece. Deveria acontecer, e está na nossas mãos fazê-lo acontecer enquanto país democrático que somos.
 Quem os legitimou, sim, aos inconsequentes, fomos nós. E agora quem paga a factura também somos nós. É o karma a funcionar.
Acredito que já chegámos ao fundo do poço. Acredito que não é possível mais austeridade. Mas também acho que, por estarmos dependentes, temos que nos sujeitar. Tentando flexibilizar as coisas, tentando conseguir as melhores condições possíveis, claro.
Certamente quem é rico continuará a ser. Quem tem fortuna continuará a ter. Possivelmente menor, é certo, mas ainda no limiar da riqueza. Só que não há alternativas, é esse o problema. Toda a gente fala em injustiça mas ninguém fala em alternativas. Porque a mim, e aos economistas que conheço, só se apresentam duas possibilidades: a troika ou a miséria. E já se sabe que, como sempre, quem tem o dinheiro é quem impõe as condições do empréstimo. É, e será assim. Sempre. Qualquer que fosse o partido a assumir funções teria que ser castigador. Porque só assim é que sairemos do fosso.
Seja como for, fiquei orgulhosa do povo português na manifestação de hoje. Digno, pacífico e lutador. Já ninguém aguenta mais, é certo. Mas não me venham os utópicos de serviço, quais Louçã da vida, dizer que não precisamos da Troika para nada. Infelizmente precisamos. E muito.
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7 Responses to “Da manifestação e das medidas de austeridade”

  1. Patrícia Lourenço Sunday 16 September 2012 at 07:32 #

    Parabéns pela clareza das tuas palavras…. finalmente leio alguém realista no meio disto tudo 🙂

  2. Karina Sunday 16 September 2012 at 09:42 #

    É uma verdade, como agora são estes que estão no governo, estes é que são os culpados de tudo. Ninguém se lembra que foram outros que deixaram o país chegar ao ponto de ruptura! Agora até quase que fazem uma estátua ao Sócrates, que bonzinho que ele era… esquecem-se que o homem é um lunático que só nos andou a endividar. Não só ele, é claro, mas foi um dos maiores responsáveis.

    Eu não concordo com tanta austeridade, porque também é preciso haver estímulo económico para recuperarmos. Mas que era preciso haver cortes, isso era. Havia muita gente mal habituada. Só tenho pena é que este governo se esqueça das coisas que prometeu que iria fazer – e que iria desanuviar bastante as nossas contas – e que ainda não fez. E também tenho pena da oposição, que só serve para chicotear, nunca para apresentar alternativas…

  3. S* Sunday 16 September 2012 at 10:19 #

    Não ,este não é o melhor caminho. O país precisa de austeridade, é certo, mas existe uma máquina do Estado que gasta demasiado dinheiro. Administradores, políticos, deputados, gestores, empresas, fundações… nisso é que deveriam cortar.

  4. Laetitia Sunday 16 September 2012 at 12:00 #

    S* economicamente falando não há alternativas. Esse é o problema. E, embora concorde contigo, o sistema é assim. Sempre foi e será. Porque a mentalidade do chico espertismo é uma mentalidade que assola, em demasia, o povo latino.:s

  5. Jonas malezas Sunday 16 September 2012 at 14:27 #

    Com gente como tu e que Portugal se afunda. Ainda bem que bem puseste os pés ontem nas manifestações. Tambem com esse nome só podias ser faxa

  6. Laetitia Sunday 16 September 2012 at 14:36 #

    Desde que fundamente a sua opinião terei todo o gosto em discuti-la consigo. De todo o modo parece-me que o insulto gratuito, esse sim, é o primeiro passo no caminho para afundar o país. E, já agora, seria de bom tom escrever a sua opinião de forma correcta. É que, o país também se afunda um bocadinho mais quando se assassina a língua portuguesa.

  7. coqueluxos Tuesday 18 September 2012 at 13:59 #

    Parabéns pela sua manifestação Laetitia…Qualquer país se afunda qdo a educação vai mal…. bjokas

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