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Ao sabor do chá ou do maracujá

26 Feb

O meu dia começa, invariavelmente, ao sabor de chá. Fumegante no inverno, gelado no verão. Enquanto o beberico pensativa, encostada à janela observando o acordar da cidade, dou por mim a pensar na rotina. Há quem a transforme num monstro e apregoe que nos faz mal. Há quem não saiba viver sem ela. E há aqueles outros, como eu talvez, que a apreciam na medida certa. 

A verdade é que há uma certa segurança na rotina de todos os dias. Naquilo que, de alguma forma, achamos que podemos controlar de tão aparentemente previsível. Bebericar aquele chá, manhã após manhã, dá-me alguma paz. É um ritual de mim para mim onde me dou alguns minutos a devaneios. Acredito, porém, que quebrar a rotina de vez em quando faz bem. É bem possível que, num ou noutro dia, me apanhem com um sumo de maracujá logo pela manhã. Ou até com um cappuccino. O diferente renova-nos, permite-nos saborear a liberdade que tanto apreciamos, absorver novas experiências. E de repente, quem sabe, alguma outra coisa se torna a nossa rotina por gostarmos tanto dela. Porque no fim de contas a rotina é como a vemos. Pode ser boa, pode ser má, ou pode ser algo que queremos substituir. O que importa realmente é que não a deixemos entrar em todos os compartimentos da nossa vida. Afinal, é a nossa vida. Ainda temos uma palavra a dizer, não é? 

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I’m singing in the rain

21 Feb

Yellow

Embora tenha acordado com uns tímidos raios de sol a beijarem-me o rosto, não me deixei levar pela falsa promessa de um dia soalheiro. Não que tenha qualidades de adivinha ou saiba ler o andar das nuvens. Nada disso. Mas o diz-que-disse do café de todos os dias ameaçava, em tom de profecia, um final de semana chuvoso. E toda a gente sabe que nos cochichos de café – que vão desde o estado da bola à pouca vergonha para que nos arrasta a Assembleia da República – a única verdade em que se pode confiar é no estado do tempo. Meteorologistas por experiência é o que é. Afinal, se o ministro pode ser licenciado por experiência o povo não pode ser meteorologista por hábito? Voltando ao que importa, uma parte de mim – mais que ansiosa pela primavera – queria deixar-se levar pelo tentador engano proporcionado por aquele sol. Mas o espírito ensonado, arrancado a ferros da cama acolhedora, obrigou-me a ser sensata. Sob pena de cair no ridículo, ainda não se avistava sequer uma gota vinda dos céus àquela hora, optei pelo trench amarelo. O relógio dizia-me, em tom acusador, que já estava atrasada e não havia tempo para maquilhagem. Ora bolas, se ia ter olheiras de panda o dia todo também me apetecia ter o sol à força. E quando ao início da tarde o céu se pintou de negro e as pingas grossas me atingiram o rosto não me importei. Não porque goste de chuva, mas porque no meu mundo o sol brilhava. Pela primeira vez em muito tempo dei por mim a cantarolar o i’m singing in the rain, enquanto caminhava sem pressas debaixo do meu guarda-chuva amoroso.

Os lábios da crise

20 Feb

Ontem, enquanto esperava por uma amiga no café do costume, entreguei-me a um dos meus passatempos  preferidos: observar pessoas. Já o disse mais que uma vez, mas a verdade é que gosto mesmo de apreciar comportamentos e imaginar vidas para as gentes que vou vendo aqui e ali. 

Por entre o chá verde que ia bebericando e os macarons coloridos, não pude deixar de reparar que a maior parte das mulheres usava batom. As cores garridas, com predominância do rosa e do vermelho, estavam ali, um pouco por todo o café, a colorir lábios e vidas. Quase imediatamente lembrei-me do Leonard Lauder e do seu tão famoso lipstick index.  A tal teoria que demonstra que o consumo de cosméticos, e sobretudo de batons, tende a crescer quando a economia está estagnada ou em recessão. Não sei se foi um mero acaso ou se nós, mulheres, cansadas de ouvir a palavra crise em tudo o que é sítio, andamos a investir mais em batons. Afinal são aquele pequeno luxo acessível, capaz de nos fazer sentir mais bonitas. Estava ainda perdida em indagações quando a minha amiga chegou. Linda como sempre, trazia os lábios num cor de vinho carregado de fazer inveja. Pode ter sido uma coincidência ou pode ser muito mais do que isso. Mas o que realmente importa é que haja alguma coisa boa neste mar lamacento chamado crise que nos vai arrastando a todos. Mesmo que essa coisa boa seja a venda de batons a disparar, e portuguesas mais atraentes. Porque há muito pouco de futilidade em algo que nos faz um bocadinho menos infelizes. Ou um bocadinho mais felizes, como queiram.

Dia dos namorados: guia de sobrevivência para solteiros

14 Feb
Quando se está na pele de solteira o dia dos namorados pode transformar-se numa verdadeira tortura, digna do nome bullying. De repente, parece que caiu um feitiço de amor sobre a humanidade. Toda a gente se ama, toda a gente tem para os braços de quem correr ao final da tarde, todos dão beijos de cortar a respiração, mas… e nós? Apetece vociferar, gritar ao universo, ou ao tal do São Valentim, e eu? Porque é que eu não tenho amor? Porque é que se esqueceram de mim? E, por entre esta revolta muda, os corações multiplicam-se. Ou melhor dizendo, quadruplicam-se. A propósito, alguém sabe de onde é que saem tantos corações no dia dos namorados?
 
Eu sei o que é viver sem amor. Querer abraços apertados, beijos molhados, sorrisos cúmplices, e não ter mais que a vontade disso tudo. E desengane-se quem pensa que é fácil. Não é. Ser solteiro é uma verdadeira prova de fogo ao amor próprio. Porque é giro fazer-se o que quer à hora que se quer, é bom estar sempre disponível para os amigos. Sim, é. Mas não substitui aquela vontade de ter quem nos arrebate, nem preenche o vácuo que carregamos no coração e que se acentua a cada vez que vemos um casal feliz, de mãos dadas e corações entrelaçados.
Apesar disto tudo, sou a prova viva que é só uma questão de tempo até encontrarmos o par que nos enche as medidas. Não posso dizer-vos quando acontecerá, mas posso garantir que vai acontecer. Toda a gente merece ter amor. E, mais cedo ou mais tarde, ele acaba sempre por nos cair no colo. O mais importante é viver, gostarmos de nós próprios, e permitirmo-nos. Nos entretantos deixo-vos algumas sugestões para sobreviver ao dia mais romântico do ano: 
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Desde apostar num corte novo, pintar as unhas com um verniz improvável ou receber uma massagem deliciosa, há uma data de alternativas para este dia passar num ápice. Que tal uma ida às compras seguida de pizza com as amigas? Ou um banho aromático à luz das velas depois de uma revigorante ida ao ginásio? A Audrey Hepburn também pode ser uma óptima companhia. Ou aquele livro que queremos muito ler mas andamos a adiar há que tempos. Comprar os sapatos que andamos a namorar desde que chegaram à loja também me parece uma boa ideia. Afinal já dizia, muito sabiamente, a nossa Carrie:”Sometimes it’s hard to walk in a single woman’s shoesThat’s why we need really special ones”. E nisto os ponteiros do relógio já nos dizem que é dia 15.
Afinal o dia dos namorados não foi assim tão mau, pois não?

A geração tipo

29 Jan
No sábado enquanto via a Joana Ribeiro – actriz de que gosto muito, a propósito – no Alta Definição, apercebi-me de uma realidade que não gosto muito de enfrentar: faço parte da geração “tipo”. Daquela geração que usa a palavra tipo como muleta em tudo o que é frase. Tipo isto, tipo aquilo, tipo aqui, tipo acolá. Chega a ser irritante de tão patético. Mas tipo o quê?
Não me orgulho disso, e chego até a envergonhar-me, mas a verdade é que também eu já dei por mim a dizer tipo mais vezes do que gostaria de admitir. Há uns tempos escapou-me um tipo enquanto estava numa reunião profissional. Escusado será dizer que me penitenciei mentalmente um milhão de vezes. Não sei por que raio esta palavra pegajosa tende a dominar o vocabulário jovem. Desde queques a tatuados, o maldito tipo é o rei do diálogo (e até de alguns monólogos e pensamentos, convenhamos). Não sei bem o que as pessoas mais velhas pensam do tipo, que é um tipo que não deslarga, mas a julgar pelo olhar reprovador que a minha avó me lançou quando me ouviu a dizê-lo, só posso achar que não é nada de bom.
Isto tudo para dizer que, de há uns tempos para cá, tomei a decisão de declarar guerra aberta ao estúpido do tipo. Agora que me apercebi o quanto abomino como ele soa proferido pelos outros, quero aboli-lo, desenraizá-lo de mim.  Afinal, também sou a outra de alguém. E não, não quero pertencer a esse clã de tipos que a cada três palavras diz tipo. Arre!

Comboio

22 Jan
Desde que sou um pingo de gente que gosto de andar de comboio. Gosto do balançar embalante do comboio nos trilhos, gosto de ver a paisagem a passar veloz, gosto de imaginar vidas para as pessoas que comigo partilham a carruagem. Talvez alguma dessa magia dos comboios me venha do Expresso do Oriente, e de toda a mística que o rodeava. Não é por acaso que um dos meus livros preferidos da Agatha Christie é o Assassinato no Expresso do Oriente.
É claro que os comboios de hoje nada têm que ver com os comboios de antigamente, embora parte da magia se mantenha. Ou pelo menos gosto de acreditar que sim, pese embora os traços de modernidade estejam presentes por toda a parte. Mas é também em nome dessa modernidade que confiamos na segurança deste meio de transporte. Só que, a segurança é um conceito tão fugaz quanto falível, já se sabe. E o que aconteceu ontem, o choque dos comboios aqui perto de Coimbra, é prova disso mesmo. Provavelmente, tal como acontece nos acidentes de aviação, não se tratou apenas de um erro isolado. Mas sim de um conjunto de erros que, encadeados numa diabólica perfeição, culminam em tragédia. Felizmente não houve vítimas de maior, o que só por si é uma boa notícia. Resta agora, às autoridades competentes, aprender com os erros. Perceber o que correu mal de forma a evitar acidentes futuros. Não é o que nos resta a todos, afinal?
Quanto a mim, continuo a gostar de andar de comboio. E nem com notícias destas, de lamentar obviamente, perco o encanto por aquele que, a par do avião, é dos meus meios de transporte preferidos.